couve-flor tronco e membros


Em que pé andam os ensaios (de 2.10.06 a 9.10.06)
outubro 10, 2006, 11:48 am
Filed under: PERFORMANCE

por Gustavo Bitencourt
Na segunda-feira, dia 2/10, conversamos sobre a idéia do tango, e como poderíamos tornar isso viável. Falamos sobre a proposta da Gisele, que havia entrado em contato por e-mail, se oferecendo para colaborar nesse sentido. Achamos que deveríamos ter um trabalho mais intenso com o tango, até para que ela possa ter elementos para lidar.

O Ricardo propôs um exercício que lembrava contact improvisation, mas acrescentando uma outra diretriz. Em três estágios deveríamos manter os seguintes princípios:

1o. estágio: sempre deve haver uma superfície de contato entre o meu corpo e algum dos outros dois corpos.

2o. estágio: sempre deve haver uma superfície de contato entre o meu corpo e os outros dois corpos.

3o. estágio: sempre deve haver uma superfície de contato entre o meu corpo e os outros dois corpos, acrescentando aí uma relação de atividade/passividade no que se refere ao uso do peso.

Achamos que o exercício produziu imagens que realmente remetiam à idéia de uma dança de salão, e tiramos algumas fotos (que breve coloco aqui).

Retomamos então àquelas coreografias que tínhamos criado (eu e o Neto), a partir dos nomes dos passos de balé. Eu passei para eles a coreografia que eu tinha criado, pois o Neto nunca tinha feito, e limamos algumas coisas, fizemos algumas adaptações.

Na terça-feira, dia 3/10, como o Neto não pode ir, eu e o Ricardo ficamos trabalhando, individualmente, com a idéia de fragilidade.

Na quarta-feira, dia 4/10, eu levei um texto do Paulo Ghirardelli Jr., que fazia um apanhado geral sobre as teorias da verdade nas história da filosofia. Conversamos um pouco sobre esse texto e eu propus um aquecimento que retomava um pouco uma idéia com a qual tínhamos trabalhado num dos primeiros ensaios. Naquela ocasião um se movia e os outros descreviam o que ele estava fazendo. Discutimos bastante sobre como os nomes solidificam a ação. Agora o que eu propus era assim: sempre haveriam 3 funções, nas quais fomos nos alternando: um se move, um registra por escrito (da maneira mais funcional possível), e o outro dá intenções a quem está se movendo. Essas intenções, bem como a ação, deveriam lidar com um contexto concreto e possível. Por exemplo, quem dá a intenção, nunca poderia dizer “sua intenção é chegar ao topo da montanha”, pois não tem montanha no local de ensaio. Então dizer “sua intenção é fingir que está escalando uma montanha”, se torna uma alternativa viável. A maneira de lidar com essa informação, para quem está em cena, é se fazer a seguinte pergunta: “Se eu (do jeito que eu sou, com o humor que eu estou hoje, neste lugar aqui, com essas pessoas, fazendo esse exercício, etc.) tenho que fingir que estou escalando uma montanha, como eu reajo?”. A resposta a essa pergunta é dada em forma de ação (ou não-ação).

Fizemos esse exercício em três turnos de 20 minutos, para que todos passassem pelas três funções. Então entreguei a eles algumas propostas de composição, na qual trabalhamos o restante do dia, mas não deu tempo de terminar. Ficamos então de apresentar as composições na quarta-feira seguinte (o que não vai dar para fazer, pois é o dia que a Giselle tem disponível para trabalharmos com o tango).

Na sexta-feira, dia 6/10, o Neto trouxe um exercício de aquecimento, no qual um girava o corpo do outro no chão, então propôs que retornássemos às coreografias (as dos passos de balé). Passou para mim e para o Ricardo a que ele havia criado (complicadíssima, e o Ricardo também achou). Trabalhamos nessa coreografia até o final do ensaio.

Trouxe também uma outra proposta, a partir do texto que eu tinha levado na quarta-feira, de que cada um criasse argumentações para defender a sua coreografia dentro de cada uma das teorias clássicas da verdade. Isso ficou como tarefa de casa.
Na segunda-feira, dia 9/10, estávamos eu e o Neto. Trabalhamos novamente com as coreografias, a minha e a dele, e aproveitamos o restante do tempo para elaborar a composição proposta na quarta-feira passada.

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resposta ao e-mail do gus…processo meninos
setembro 28, 2006, 6:07 am
Filed under: PERFORMANCE

Por Michelle Moura 

Oi Gus, bacana ler sobre o processo.

Vou escrever meio rápido, pois são muitas coisas pra dizer.

Gosto da idéia da mentira x verdade. Acho que dá pano pra manga pra discutir estados de presença. Relativizar o que é ser “natural”, interpretativo. Colocar essas coisas em debate. Digo, como que podemos ingenuamente acreditar que um artista não está interpretando só pq tem uma atitude “natural”? Esse é um modismo, ou, um estilo dança contemporânea de ser… Verdade e mentira é um bom modo de colocar isso em cena. E tbm tem haver com afetividade (em algum grau) nos simpatizamos ou temos antipatizamois por um ou outro modo de estar cena, e de ver alguém em cena. Jogo de sedução!

Sua proposta (em triângulo) é legal, mas é difícil ter parâmetros pra “julgar” um movimento como verdadeiro ou não…. Diferente da fala…aí sim é possível.

Hj fui no Seminário de Dança e Filosofia, e ouvi a Isabelle Ginnot falar sobre crítica de dança. Ela propos coisas interessantes partindo da idéia de que uma crítica é escrita sempre apartir da memória do que foi visto do espetáculo (uma ficção!!) seguido da percepção (sempre em transformação!) particular desse observador: suas referências, sua seleçaõ (nunca se observa tudo!), seu modo de organizar a informação… Aí propõem a escrita, a crítica tbm como uma “performance”. Aí falou coisas que me lembarm o exercício de “olhar alguém dançando/performando e outro descrever o que vê” e o 4 textos em que vcs pedem as fotos. Ela fala assim (tudo entre aspas + minha tradução do inglês falado por ela que é francesa):

Escrever é um jeito de olhar.

Testar a percepção da dança através da escrita.

Como palavras podem ser dança?

E sugere alguns exercícios durante o ato de assistir 1 dança e escrever 1 crítica:

Fechar os olhos alguns momentos.

Perceber se vc tem empatia ou antipatia. As relações afetivas com o movimento, a dança, a cena. E sacar que a subjetividade pode ser uma mentira, 1 delírio.

Pensar que vc (que assiste/escreve) é o bailarino. Colocar-se no lugar dele. E escrever tudo em EU. Como se vc fosse o bailarino, descrevendo o q faz.

Meio rápido, mas bastante texto…

Beijos a todos da Mi



Sobre os últimos ensaios (de 18 a 27.09.06)
setembro 27, 2006, 11:35 pm
Filed under: PERFORMANCE

por Gustavo Bitencourt

Vou dar uma resumida sobre como foram os últimos ensaios. Vou focar esse resumo mais nos assuntos de que estamos tratando, e nem vou tentar ser imparcial pois não tenho como ter esse distanciamento, ao menos agora.
Antes de ir viajar, o Ricardo nos atribuiu a tarefa de produzir algo relacionado à dança de salão. Justificou essa tarefa pois tem observado que uma das primeiras imagens que vêm à cabeça de pessoas /não-iniciadas/ quando se fala de dança é a idéia de um casal dançando uma dança de salão. Propôs que pensássemos como seria uma dança de salão dançada por dois homens. Falou de como tem por objetivo uma dança que emocione, e propôs também que pensássemos sobre as relações afetivas e de submissão que existem nesse tipo de dança.

Eu e o Neto trabalhamos um pouco nisso durante a semana passada. Os dois estávamos propensos a trabalhar com tango, pois carrega uma carga dramática, romântica, que se adequava a essa idéia. Como não tínhamos referenciais sólidos sobre tango (ficamos a semana inteira tentando alugar um filme chamado “Tango” que não se acha em lugar nenhum), partimos das nossas primeiras imagens sobre a dança, e criamos uma coreografiazinha.

Na segunda-feira (25/09) encerramos a seqüência e apresentamos ao Ricardo, que nos mostrou uma seqüência na qual ele tinha trabalhado também nesses dias. Conversamos um pouco, e chegamos a um consenso (um dos poucos) sobre a idéia de trabalhar com fragilidade, de se colocar em um estado de fragilidade em cena (tenho quase certeza que alguém falou de “limites”, de desafiar “limites”. Tenho certeza que mencionei “estar em risco”). Pensando nisso, retornamos a uma das idéias iniciais que era termos um treinamento homogêneo para todos, e paralamente trabalharmos em treinos individuais. Ficou definido algo assim: cada um vai trabalhar individualmente com as suas fragilidades, e paralelamente traremos três treinos diferentes que desafiem as nossas fragilidades como coletivo.

O Ricardo ficou com essa idéia de como poderíamos ter um trabalho intenso com dança de salão. O Neto sugeriu que trouxéssemos um pouco desse pensamento Kunifas/Infantes sobre o corpo-estado-de-atenção-relação-corpo-espaço-músculo-esqueleto, esses troços todos. Eu sugeri que retomássemos a discussão sobre mentira e verdade em cena/da cena.

Hoje, quarta-feira (27/09), tivemos outro ensaio. Expliquei que havia pensado muito sobre a minha proposição do ensaio passado, e se isso não seria uma forma de me colocar num lugar mais confortável, pois fico muito mais à vontade com o raciocínio lingüístico. Mas vi também que se eu fico mais confortável, é porque esse é um lugar que me interessa, isso porque acredito que o corpo é construído de discursos. Que os “buracos” na relação entre os nossos corpos são os mesmos que existem na relação entre os nossos discursos. Exemplifiquei como vejo os nossos discursos refletidos nos nossos corpos, e que a discussão sobre verdade e mentira em cena seria uma forma tanto de alinharmos os nossos vocabulários entre nós, como de estabelecer uma comunicação com o público ao qual pretendemos falar.

Eu trouxe um questionário, que já havia enviado por email e estou anexando aqui, mais um texto da Adília Lopes (também está no anexo), que eu sempre menciono cito e amo muito, e uma proposta de exercício assim: sentamos em triângulo, e cada um fala uma frase ou conta uma história começada por “Eu já…”. A história pode ser verdadeira ou falsa, a assim que for contada, os outros dois dizem se acham que é verdade ou mentira. Depois essa mesma estrutura seria traduzida em movimentos da seguinte forma: convencionamos aleatoriamente um movimento que quer dizer “verdade”, outro que quer dizer “mentira” e outro que quer dizer “Eu já…”. A partir disso escolheríamos 5 das coisas que dissemos, e criaríamos um movimento/seqüência para cada uma delas. Depois de realizada a seqüência os outros “diriam” se é verdade ou mentira com os movimentos que convencionamos.

A partir dessa segunda etapa do exercício, o Ricardo e o Neto questionaram muito sobre que transposição é essa, se é possível transpor ou traduzir essa organização lingüística para movimento e qual a necessidade disso. Ao Ricardo parece que, apesar do discurso estar inscrito no corpo, essa transposição não é imediata, são discursos de ordens diferentes. O Neto questionou se a gente manteria a mesma estrutura de “contar uma história” com o corpo, e a ele parece que seria muito diferente o que se pode chamar de um “movimento verdadeiro” de um movimento que se refere a “uma história verdadeira”. Expliquei que o objetivo do experimento era justamente testar até que ponto a relação com o movimento se modifica quando existe por trás dele algum discurso que é real, ou acreditamos ser real.

Fizemos o exercício e, após, o Ricardo também questionou sobre a necessidade de se discutir mentira e verdade em cena, pois a cena é necessariamente uma mentira, e o certo seria a gente focar a discussão nas /intensidades/ de relação que se quer estabelecer com o público. Falei que para mim essa situação que se cria ao apresentar algo a um público não está tão bem resolvida – é uma mentira, mas uma mentira que todo mundo sabe que é mentira, então é uma verdade – e ressaltei a importância de ajustarmos os nossos vocabulários, pois o que ele entende por /intensidade/ talvez seja uma expansão do que eu conceituo como /verdade/ (cênica).

Claro que as discussões foram bem mais longas e cheias de ramificações que não estão aqui, mas dá pra ter uma idéia geral.



Sobre o nosso último ensaio 05/09/06 – Texto escrito por Gustavo
setembro 12, 2006, 2:31 pm
Filed under: PERFORMANCE

por Gustavo Bitencourt
No último ensaio, estávamos eu e o Neto, e fizemos o seguinte: a proposta que eu trouxe era que um observasse o outro se movendo durante 40 minutos, e anotasse tudo o que visse, mas não apenas descrevendo, como também trazendo um olhar crítico, criticar uma dança. Depois que terminamos, pensamos que seria bom se outras pessoas usassem esse texto como uma partitura coreográfica. Compusessem sua própria leitura corporal dessas descrições críticas, inclusive porque pode ser bom lidar com o erro, com aquilo que não funcionou.

Eis o texto que eu escrevi:

É sempre difícil entrar em cena. Ele se coloca inseguro, ressabiado. Forma imagens vetoriais com o corpo, brinca com a idéia de passos. Frente e costas, passos sem sair do lugar. O figurino lembra uma peça de época. Em alguns momentos, a idéia de brincar com passos, com a extensão dos passos, lembra balé moderno, Graham.

Mas há persistência na idéia, uma intenção clara de levar isso adiante. O passo vira o foco, assim como o reflexo do passo, o signo passo é desmembrado em vários espelhos (como numa sala de espelhos). O performer tira o casaco e põe em jogo as diversas leituras do objeto casaco. Dança com o casaco, joga-o numa parede e estende-o no chão. Aos poucos o seu corpo começa a representar determinados movimentos do casaco. Ele balança no espaço e termina no chão.

Há então uma representação de movimentos de dança reconhecíveis, uma seqüência de cambrês, sapateado, que pretendem se transformar em outra coisa. Um retorno dos movimentos vetoriais do início, uma seqüência de poses. Essa idéia é então abandonada. De uma certa forma todos os movimentos que se seguem tem algo de cômico. Talvez pelos pés en dehors, lembram um pouco Chaplin. É retomada então a idéia dos passos a partir de um par de sapatos que estavam no chão. O performer cria um jogo em que lança aleatoriamente o par de sapatos pelo chão e procura reproduzir com os pés a posição em que caíram. Pega os sapatos e produz nels uma série de torções, que vai depois reproduzir com o próprio corpo.

Para então numa atitude pretensamente natural, sai do espaço de apresentação, conversa com alguém fora de cena, volta com uma chave, abre um armário que estava trancado, sai de cena pela escada. Parece que ao subir a escada, percebe a possibilidade de usar esse espaço como cena, mas não explora. Volta ao armário, onde há um aparelho de som. Tudo como já se esperava, tira de dentro da mochila um CD, como já tinha dado indício de que ia fazer. Espero a música para entender se a previsibilidade era intencional, parece que não. Há uma série de preparos do aparelho de som, volume, equalização, que criam uma expectativa fácil, uma expectativa sem supresa. Nunca há risco.

Ele coloca finalmente a música e dança. O movimento é fácil de ser absorvido, fluido demais. Coloca-se novamente em uma posição que deveria ser natural, pega o casaco do chão simulando dar uma explicação sobre ele, sem produzir sons, apenas movendo a boca (medo da fala?). Faz a mesma coisa com outros objetos, como um computador, um telefone celular. Faz uma série de passinhos, reproduz o ritmo dos passos de uma pessoa que passava pelo local. Troca a música e começa a a dançar novamente com movimentos inicialmente clichês, uma alusão a imagens símbolos dos anos 80 (tipo Flashdance). Ao esbarrar nos sapatos tenta retomar a idéia de jogá-los pelo chão e imitar a posição deles com os pés. O jogo já é reconhecível, fica desinteressante. Ele deixa essa idéia, e usa os cadarços para amarrar os sapatos aos ombros, traduzindo em seguida o balanço deles com os pés. Abandona novamente a idéia. Termina a sua apresentação ao toque do despertador do celular, e dizendo “Foi”.



Tarefa do dia 09/08 – Ricardo
setembro 12, 2006, 1:58 pm
Filed under: PERFORMANCE

Estou postando aqui (tardiamente)  o texto que o Ricardo escreveu no dia 09/08.  Era uma tarefa que tínhamos estabelecido, pois não pudemos ensaiar juntos naquele dia. Cada um ia relatar o que estava fazendo, buscando alternar a cada meia-hora, um relato comum, e outro  relato trazendo um olhar estético/performático para o cotidiano. Lá vai:

TAREFA DE 09/08 – RICARDO
9:30

As nove o celular despertou, eu havia pedido, para saber que a tarefa estava começando. Bastante tempo pensando sobre a tarefa e sem conseguir me concentrar em outra coisa. Chega a Dona Francisca e me chama de vagabundo pois não fui trabalhar. Fico um bom tempo tentando convence-la de que estou trabalhando. Ela não concorda. Vou à locadora devolver um filme. Penso na Madonna. Encontro a Karla na rua e não quero conversar, pressa para chegar antes das 9:30 em casa. Procuro papel. Lembro do tempo em que tudo era feito em papel com linhas. Começo o relato.

10:00

Preocupado com se conseguiria me deslocar pelo menos de casa até o banco em 20 minutos (entre 9:40 e 10:00). Consegui, mas sofri e corri. Enquanto corro penso pouco. Uma idéia só cabe na cabeça. Uma única idéia para quase meia hora. Mentira. Mas não é mentira.

10:30

Cheguei no Banco do Brasil as 10:02 e fiquei um tempo da fila escrevendo. Uma mulher atrás de mim na fila, esteve muito curiosa para ver o que eu escrevia. Perguntei, cordialmente, se ela queria ler. Ela se assustou e disse que não. Pensou que eu tivesse me ofendido, acho. Fiquei na fila até 10:32 e vi várias coisas lá: a gerente gorda com quem eu sempre brigo, ela sorriu pra mim daquele jeito “tomara que ele não queira falar comigo”. Vi que os estagiários são novos (outra vez). Eles sempre são novos e nunca sabem nada. Percebi que tiraram da parede um relógio que tinha lá. Com certeza em busca de enganar os idiotas que ficam horas na fila. A mulher me chama e como são 10:32 começo a escrever enquanto ela faz os pagamentos que entreguei.

11:00

Voltei pra casa, mas agora sabia que 20 minutos seriam suficientes, então tive menos pressa. Com menos pressa devo ter prestado atenção em várias coisas, mas dentre elas o trem passou e eu curto o trem. Ele tem uma nostalgia fedida que me interessa. Uma lentidão que me interessa. Uma retidão que me interessa. Uma certeza que me interessa. Talvez pela distância que isso tudo tem de mim.

11:30

Em casa novamente, as 11:05, tentei começar a leitura da quase última versão da monografia de um orientando de especialização. Trata de padrões heterossexistas nas práticas pedagógicas em EF. Não conseguia ler, de linha em linha comecei a pensar em mil coisas que iam para além disso. Isso me faz pensar que quando temos a tarefa, a tarefa é o que fazemos. Não outra coisa… Viu Dona Chica! Estou trabalhando! Levantei três vezes até chegar em 11:30. banheiro-comida-banheiro. Sintomas da desconcentração.

12:00

Adoro cozinhar. Me sinto generoso. E é só.



exercício do dia 09/08/06
agosto 11, 2006, 8:16 am
Filed under: PERFORMANCE

Neto Machado 

meus registros a partir do exercício proposto no ensaio do dia 08/08/06:

Texto das 9:30.O celular toca e vibra às nove horas avisando que são exatamente nove horas da manhã de quarta-feira. Sem desgrudar a cabeça do travesseiro, duplo, ergo o braço esquerdo pra traz e alcanço o telefone celular que tremia na cabeceira da cama. Olho para o canto superior direito da tela do aparelho, para confirmar as exatas nove horas. Após a confirmação, interrompo o som do despertar apertando o botão que aciona a função snooze. Guardo o celular na minha mão, e volto a fechar os olhos e dormir (como rosto virado para a parede e o corpo encolhido em posição fetal). Seis minutos depois, o celular volta a tocar, agora na minha mão, avisando que se passaram os minutinhos a mais que você se propõe a dormir quando aciona o snooze. Ainda insatisfeito, viro para o outro lado da cama, arrumo o edredom e aciono novamente o botão snooze. Retorno a dormir. Sonho com o meu irmão. Não lembro bem o quê, mas, nesses seis minutos, sonhei com meu irmão. Acordo novamente com o celular na minha mão, fico na cama um pouco em estado sonolento, nem acordado nem dormindo, aproveitando a temperatura agradável embaixo do edredom. Mexo-me de um lado para o outro, estico meus braços para cima e bocejo. Sento-me com os pés para fora da cama, retiro o edredom das minhas costas e fico um tempo ali, pensando sobre qual seria a melhor maneira de começar o dia. Por onde começaria? Nisso levantei e fui descalço em direção ao banheiro.

Texto das 10:00. Todas as imagens dessa cena são vistas através de um espelho. Primeiro a imagem está toda num tom de verde musgo, com finos traços brancos que formam quadrados. Muda luz, clareia a cena. A luz vem de cima, mais do lado esquerdo do que direito. De repente, passa um vulto, você consegue identificar como sendo uma pessoa. Mais um tempo de cena vazia. Volta a passar o vulto para o lado contrário e luz volta diminuir. Tempo de cena em verde musgo. A luz volta a clarear e a pessoa entra em cena, conseguimos vê-la dos ombros para cima. Homem, moreno, cara fechada; fica um tempo olhando bem para o centro do quadro. Depois, seu rosto some para baixo e volta molhado com as mãos nos olhos. Volta a olhar para o centro e sai. A luz diminui, fica o verde musgo.

Texto das 10:30. Preciso da internet para trabalhar durante esse horário. Clico duas vezes no link do internet Explorer, estou sentado num banquinho branco com assento almofadado. Primeiro, abro a página do gmail, e, ao mesmo tempo, abro a página do orkut. Ninguém me escreveu no orkut, já tinha olhado quando cheguei em casa na noite anterior. Li os nomes das pessoas que foram os últimos a visitar o meu profile. Entrei nos dois nomes desconhecidos para identificar quem eram. Um menino que fazia teatro no odelair rodrigues quando apresentei o Hamlet lá; aliás, o menino que o gustavo achava lindo. O outro, um André, que eu nunca soube da onde eu conheço, mas eu conheço.Voltei à página do meu email, apago todos os que não me interessam e escrevo um email para o Marco Filipim de Porto Alegre. Fico com vontade assuar o meu nariz, vou até o banheiro, o chão está frio, pego um rolo de papel higiênico e trago comigo até o computador (que fica no meu quarto). Rasgo um pedaço de papel do rolo, dobro em duas partes e assuo o nariz. Amasso o papel, e jogo num cesto de lixo que tenho em baixo da escrivaninha do meu quarto. Eu adoro latas de lixo, ou cestas de lixo, ou coisas que o valham. 

Texto das 11:00. Um feixe de luz vem da janela e ilumina o quarto todo preto e branco. Na cama, um homem sentado, de cueca branca, lendo um livro de capa vermelha. Cama desarrumada. O homem aproveita o tempo.

Texto das 11:30. Não sei que roupa colocar. Dia quente, mas sei que mais a noite vai esfriar. Camiseta; e blusa de lã para depois. Cueca Branca, meia branca, calça jeans, camiseta marrom e blusa na mão. Passo pelo corredor, pelo quarto dos meus pais, pego uma toalha vinho, e entro no banheiro. Ligo primeiro a água quente, até ela esquentar, e regulo em uma temperatura média com a água fria. Coloco a toalha pendurada no box, tiro minha cueca e entro no chuveiro. Primeiro lavo o cabelo com xampu, depois sabonete no corpo. Enxáguo tudo e desligo chuveiro. Dentro do box alcanço a toalha, enxugo primeiro meu rosto, depois cabeça, desço pelos braços, peito, barriga, costas, bunda, pinto, perna direita, perna esquerda, saio do box e piso na toalha do chão. Fora do box, enxugo meus pés. Deixo a toalha, coloco minha cueca, depois camiseta, depois calça e pego escova de dente. Passo pasta, coloco um pouco de água, e escovo com pequenos movimentos circulares. Ao invés de mexer as mãos com a escova, mexo minha cabeça de um lado para outro. Cuspo, enxáguo a boca e lavo a escova. Saio do banheiro com toalha na mão, vou até meu quarto coloco as meias brancas e visto meu all star azul claro.

Texto do meio dia. Andando pela rua escuto barulhos ao fundo: ônibus, gritos, caros, bicicleta… na calçada oposta uma menina grita: EI ?!? NETO ! E durante esse momento, todos os barulhos pararam.



Relato – manhã de 09/08/06
agosto 10, 2006, 2:51 am
Filed under: PERFORMANCE

Gustavo Bitencourt

Meus registros a partir do exercício proposto no ensaio do dia 08/08/06:

9:00

Começo esse registro exatamente às 9h02. Cheguei no trabalho às 8h02. F me contou que tinha feito maionese [resultado de 2 horas ontem falando que se eu não comesse canudinho de maionese nos próximos dois dias eu me matava], me mostrou um pote gigante que estava na geladeira. Peguei um copo cheio de café com 6 gotas de adoçante. Entrei na sala, liguei o computador, tinha problema na rede. Fiquei fazendo – ironicamente – meu relatório de atividades. [Explico: a gente tem que fazer aqui todos os dias um relatório detalhado com hora do começo e hora do término de cada atividade. Todo mundo faz isso todos os dias, eu faço quando lembro. Então tenho que ficar perguntando para todo mundo (tipo “A, o que que eu fiz ontem mesmo? E segunda?”)]. Então uns 30 minutos fazendo isso. Escuto fofocas sobre uma famigerada denúncia anônima que foi feita ao sindicato. Comentamos sobre o departamento de informática e a rede que pifou (“alguém ligou?” “já voltou a rede?” “alguém tá acessando?”). Fico fazendo piadinhas com E., um fazendo insinuações sobre a incompetência do outro. São 9h15. G me traz 2 textos pra eu analisar, me pergunta se Patativa do Assaré é domínio público, eu não sei.

9:30

A rede voltou a funcionar por 2 minutos e pifou de volta. Saio pra fumar um cigarro. Volto pra sala. Penso que eu levei quase 15 minutos fazendo esse relato, e ainda tenho que terminar meu relatório de atividades de ontem, é tudo só registro. [A vida é só registro e registro não é ação, é limite da ação, é uma merda. Reparo em C, minha chefe. C é uma japonesa ocupada que anda de um lado para outro, muito rápida. Na sala dela tem um quadro azul e um vidrão: um aquário e C é um peixe beta. Trabalhar é fazer cara de ocupado. Eu faço isso muito bem quando eu quero]. J entra na sala de C, fecha a porta. Tenho certeza que estão falando de mim. São 9h36.

10:00

Só um pouco, estou no telefone e anotando uns negócios – aquela história do Patativa do Assaré. Estou no telefone com a UBN, pegando o telefone de uma editora musical. Depois ligo para a Abramos, conseguir o telefone de outra. Bom, das 9h36 às 9h50 fiquei enrolando mais um pouco, fui para o intervalo, fumei mais um cigarro. Conversei com J, Pt e Pa. J reparou nas minhas meias laranja combinando com minha camisa laranja. J é razoavelmente charmoso e não tem um pingo de escrúpulo, pouquíssimo confiável, mas por sorte morre de medo de mim. Pt mediano, Pa chato e agradável. Volto pra sala pronto pra, agora, começar a trabalhar. Ligo para lugares, anoto telefones. São 10h07.

10:30

Tá, eu preciso fazer isso, mas preciso terminar um relatório que eu tenho que entregar daqui a pouco. [Artista versus funcionário, vou me matar]. Bom, das 10h07 às 10h30, consegui depois de um certo esforço dois e-mails que eu precisava Pedi um orçamento por telefone, 960 reais pra usar uma letra do Catullo da Paixão Cearense. Deixei um e-mail salvo mas não mandei ainda porque eu quero dar uma revisada. E. me chamou pra ver uma foto no computador dela, um troço lindo lá no Ceará, uma mulher com cara de nordestina vestida de sereia, com um rabo de lamê dourado em cima de um pano azul em cima de uma caminhão. Devem ter acontecido uma série de outras coisas, mas já são 10h34, e daqui a pouco que tenho que falar com J.

11:00

Fiquei atualizando um relatório de custos sobre todos os textos e imagens de um livro de Português para a 6a. série [os valores mudaram totalmente depois de uma reunião ontem, tenho que rever um por um, porque o orçamento final é tudo que conta por aqui]. [Na 6a. série os meus livros eram todos péssimos, e esse é bem bom]. Levo o relatório com os custos todos certinhos para J. Estou fazendo todo o trabalho dele, mas ele é tão lesado que se eu não faço isso, ele passa as informações adiante todas erradas e eu quero que saia tudo certo, porque eu gosto do livro. Pesquisei um pouco mais e descobri que os 960 reais que vamos pagar para usar uma música do Catulo da Paixão Cearense são uma sacanagem, pois ele “morreu pobre e os direitos autorais, sua única fonte de renda possível, foram vendidos a um amigo por um preço irrisório”. [Será que se fosse hoje ele podia entrar no Itaú Cultural, Capes, CNPQ e receber pela pesquisa e não pelos direitos?]. São 11h05.

11:30

Traduzi dois termos de cessão de direitos, meio resumindo, só explicando em linhas gerais. C está andando meio manca, é engraçado. [Ontem me falou que somatiza tudo e afeta direto a lombar, não nestes termos.] Liguei pra LD, disse que encaminhou a solicitação para o Solar. Foi gentil, mais do que de costume, o que me deixou desconfiado. Disse que breve teremos uma resposta. São 11h34. Estou morrendo de fome. Só penso nos canudinhos de maionese, mas F disse que a gente só vai comer no lanche da tarde.

12:00/12:30

Das 11:45 ao meio-dia e quinze almocei. Bife estranho, alface, torta de salsicha, cenoura e palmito. Eu, F, Pa e Pt. Queria sentar com os meninos da manutenção porque os papos são mais divertidos, mas F já me encontrou com sua bandejinha, sentei com ela. Falamos sobre a fofoca – a visita do sindicato no departamento de editoração. Diz que o Pi falou para os fiscais do sindicato tudo o que acontece (eles não podem ir no banheiro, não podem conversar, telefonemas pessoais só no telefone público, a digramação não tem acesso à internet, tem que atender o telefone na mesa da chefe, não há plano de carreira). [Adoro o Pi, ele é top gato e gente boníssima e me ajudou a carregar a minha mesa e armário lá pra casa, quando eu comprei. Quer vender tudo e ir viajar pela América do Sul, passar um tempo na Nicarágua]. Comecei este relato às 12h28, pois das 12h15 até então fiquei conversando com F e Pa, ela contou das torturas que o marido dela sofre no trabalho como gerente de banco, e o Pa contando das torturas que ele mesmo sofria quando era bancário. [Como tenho sempre problemas com banco, me identifico com ele como funcionário, mas penso também que sou cliente e fico com raiva. Empatia às vezes fode tudo]. Venho para a sala e começo a digitar. São 12h35 agora.