couve-flor tronco e membros


Sobre os últimos ensaios (de 18 a 27.09.06)
setembro 27, 2006, 11:35 pm
Filed under: PERFORMANCE

por Gustavo Bitencourt

Vou dar uma resumida sobre como foram os últimos ensaios. Vou focar esse resumo mais nos assuntos de que estamos tratando, e nem vou tentar ser imparcial pois não tenho como ter esse distanciamento, ao menos agora.
Antes de ir viajar, o Ricardo nos atribuiu a tarefa de produzir algo relacionado à dança de salão. Justificou essa tarefa pois tem observado que uma das primeiras imagens que vêm à cabeça de pessoas /não-iniciadas/ quando se fala de dança é a idéia de um casal dançando uma dança de salão. Propôs que pensássemos como seria uma dança de salão dançada por dois homens. Falou de como tem por objetivo uma dança que emocione, e propôs também que pensássemos sobre as relações afetivas e de submissão que existem nesse tipo de dança.

Eu e o Neto trabalhamos um pouco nisso durante a semana passada. Os dois estávamos propensos a trabalhar com tango, pois carrega uma carga dramática, romântica, que se adequava a essa idéia. Como não tínhamos referenciais sólidos sobre tango (ficamos a semana inteira tentando alugar um filme chamado “Tango” que não se acha em lugar nenhum), partimos das nossas primeiras imagens sobre a dança, e criamos uma coreografiazinha.

Na segunda-feira (25/09) encerramos a seqüência e apresentamos ao Ricardo, que nos mostrou uma seqüência na qual ele tinha trabalhado também nesses dias. Conversamos um pouco, e chegamos a um consenso (um dos poucos) sobre a idéia de trabalhar com fragilidade, de se colocar em um estado de fragilidade em cena (tenho quase certeza que alguém falou de “limites”, de desafiar “limites”. Tenho certeza que mencionei “estar em risco”). Pensando nisso, retornamos a uma das idéias iniciais que era termos um treinamento homogêneo para todos, e paralamente trabalharmos em treinos individuais. Ficou definido algo assim: cada um vai trabalhar individualmente com as suas fragilidades, e paralelamente traremos três treinos diferentes que desafiem as nossas fragilidades como coletivo.

O Ricardo ficou com essa idéia de como poderíamos ter um trabalho intenso com dança de salão. O Neto sugeriu que trouxéssemos um pouco desse pensamento Kunifas/Infantes sobre o corpo-estado-de-atenção-relação-corpo-espaço-músculo-esqueleto, esses troços todos. Eu sugeri que retomássemos a discussão sobre mentira e verdade em cena/da cena.

Hoje, quarta-feira (27/09), tivemos outro ensaio. Expliquei que havia pensado muito sobre a minha proposição do ensaio passado, e se isso não seria uma forma de me colocar num lugar mais confortável, pois fico muito mais à vontade com o raciocínio lingüístico. Mas vi também que se eu fico mais confortável, é porque esse é um lugar que me interessa, isso porque acredito que o corpo é construído de discursos. Que os “buracos” na relação entre os nossos corpos são os mesmos que existem na relação entre os nossos discursos. Exemplifiquei como vejo os nossos discursos refletidos nos nossos corpos, e que a discussão sobre verdade e mentira em cena seria uma forma tanto de alinharmos os nossos vocabulários entre nós, como de estabelecer uma comunicação com o público ao qual pretendemos falar.

Eu trouxe um questionário, que já havia enviado por email e estou anexando aqui, mais um texto da Adília Lopes (também está no anexo), que eu sempre menciono cito e amo muito, e uma proposta de exercício assim: sentamos em triângulo, e cada um fala uma frase ou conta uma história começada por “Eu já…”. A história pode ser verdadeira ou falsa, a assim que for contada, os outros dois dizem se acham que é verdade ou mentira. Depois essa mesma estrutura seria traduzida em movimentos da seguinte forma: convencionamos aleatoriamente um movimento que quer dizer “verdade”, outro que quer dizer “mentira” e outro que quer dizer “Eu já…”. A partir disso escolheríamos 5 das coisas que dissemos, e criaríamos um movimento/seqüência para cada uma delas. Depois de realizada a seqüência os outros “diriam” se é verdade ou mentira com os movimentos que convencionamos.

A partir dessa segunda etapa do exercício, o Ricardo e o Neto questionaram muito sobre que transposição é essa, se é possível transpor ou traduzir essa organização lingüística para movimento e qual a necessidade disso. Ao Ricardo parece que, apesar do discurso estar inscrito no corpo, essa transposição não é imediata, são discursos de ordens diferentes. O Neto questionou se a gente manteria a mesma estrutura de “contar uma história” com o corpo, e a ele parece que seria muito diferente o que se pode chamar de um “movimento verdadeiro” de um movimento que se refere a “uma história verdadeira”. Expliquei que o objetivo do experimento era justamente testar até que ponto a relação com o movimento se modifica quando existe por trás dele algum discurso que é real, ou acreditamos ser real.

Fizemos o exercício e, após, o Ricardo também questionou sobre a necessidade de se discutir mentira e verdade em cena, pois a cena é necessariamente uma mentira, e o certo seria a gente focar a discussão nas /intensidades/ de relação que se quer estabelecer com o público. Falei que para mim essa situação que se cria ao apresentar algo a um público não está tão bem resolvida – é uma mentira, mas uma mentira que todo mundo sabe que é mentira, então é uma verdade – e ressaltei a importância de ajustarmos os nossos vocabulários, pois o que ele entende por /intensidade/ talvez seja uma expansão do que eu conceituo como /verdade/ (cênica).

Claro que as discussões foram bem mais longas e cheias de ramificações que não estão aqui, mas dá pra ter uma idéia geral.

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