couve-flor tronco e membros


Sobre o ensaio de 08/08/06
agosto 10, 2006, 2:39 am
Filed under: PERFORMANCE

Gustavo Bitencourt

Ensaiamos ontem (8/8/06 – terça-feira) na Honjo. Cheguei, o Neto já estava lá: comentou sobre a aprovação do Mobiliário e do Vida Real para o festival de Araraquara. Um pouco depois chegou o Ricardo, que já trazia umas propostas: trouxe um texto mais ou menos sobre como o corpo e a imagem do corpo são construídos socialmente, e o mote era o corpo como lugar de passagem.

Propôs um exercício de associação de palavras. Um dizia uma palavra e o outro repetia a palavra dita e acrescentava outra. Por exemplo, um poderia dizer “repolho”, ou outro diria “repolho me lembra olho”, “olho me lembra abelha”, e assim sucessivamente.

Depois propôs que transpuséssemos essa idéia para movimentos; um faria um movimento, outro faria aquele movimento e mais um, o outro repetiria os últimos dois movimentos e acrescentaria outro. Praticamos isso por algum tempo, depois paramos e conversamos sobre nossas impressões. Neto falou um pouco sobre como o exercício remetia à interferência de um no território do outro. Eu falei sobre como o meu raciocínio primordialmente lingüístico me trazia outras maneiras de ler movimento (movimento necessariamente significa alguma coisa e, pra mim, é necessário codificar lingüisticamente antes de agir, tipo “ele coçou a bunda, depois bateu na porta” ). O Ricardo então leu outro texto falando sobre o uso do tempo na contemporaneidade, e eram trazidas algumas idéias sobre lentidão e velocidade, sobre como a sociedade contemporânea valoriza a velocidade e considera a lentidão como inabilidade, falha.

Propôs então um exercício assim: cada um iria construir esculturas em 3 dimensões, de forma precisa, com seu próprio corpo, traçando relações também tridimensionais com os outros dois. Propôs duas diretrizes: que nos mantivéssemos razoavelmente próximos e que não nos tocássemos. Depois de um tempo proôs que fizéssemos a mesma coisa, mas que um pudesse sair e observar os outros, de cada vez. Então, durante, acrescentou outra diretriz: que pudéssemos fazer mais rápido, sem perder a idéia original.

Praticamos esse exercício por algum tempo, e depois paramos para conversar. Incialmente, o Ricardo falou que para ele isso representava apenas uma forma de nos conhecermos dentro desse espaço de criação. Eu questionei um pouco qual o motivo da velocidade, especialmente em comparação com o texto que a gente viu anteriormente. Ele disse que era justamente uma tentativa de ver quanto de precisão se mantém na velocidade. Falei que entendo que velocidade e precisão são inversamente proporcionais, e questionei novamente a presença da diretriz velocidade. Em algum ponto dessa resposta, o Ricardo mencionou novamente que isso era um forma de entendermos o funcionamento um do outro, e que aos poucos iremos definir que corpo queremos para esse espaço de performance, e a partir disso, que tipo de treinamento teremos.

Nesse ponto, achei importante questionar os conceitos de cena, treinamento, vida real. Entendo que há um estado e uma série de significados associados ao espaço de apresentação, de mostrar um trabalho de arte para alguém. Mas acredito também que existe arte no cotidiano, que a vida real é performática, e pergunto qual é o limite, pois me interessa trabalhar no limiar. Ricardo e Neto se colocam no sentido de que é ponto-pacífico a diferença entre o território performático e o cotidiano, tudo que é feito em cena é lido como performático. Ricardo coloca que essas são discussões dos anos 60.

Nossas discussões vão desde a existência ou inexistência de uma hierarquia entre a produção do artista que é mostrada ao público e um ato cotidiano, até o conceito de treino e qual a real necessidade de passar por um treino para executar uma tarefa melhor do que os outros. Ricardo alega que em qualquer ação (menciona-se também profissão) há uma especificidade técnica.

Coloco que há necessariamente uma dualidade, a seguinte: ou nos colocamos a favor da cena ou contra ela. Se aceitamos que já está resolvido que é cena mesmo, estamos nos colocando a favor, se de alguma maneira questionamos o território cênico, estamos contra. Acho que seria necessário antes entendermos que tanto de significados traz o espaço de performance por si só, para depois nos determos em o que fazer ali, até mesmo pela nossa proposta de nos apresentarmos em espaços convencionais, pelo nosso histórico etc.

Ricardo vê a dualidade, mas não acha que não são coisas excludentes, pode haver uma coexistência das coisas num mesmo trabalho. Cita o exemplo do trabalho da Cintia Kunifas, que de alguma forma é cênico, mas também se opõe, principalmente no uso do tempo, ao que se espera de um lugar performático.

Sobre a questão do treino pergunto se o propósito disso seria necessariamente uma unidade estética ou se os três corpos deveriam necessariamente responder de modos diferentes a um mesmo treino. Ricardo pergunta o que eu entendo por unidade estética, e depois de pensar muito, respondo que é ritmo (considerando ritmo não unicamente como um beat, mas uma recorrência de elementos que nos levam a entender algo como uma coisa única). Ricardo responde que pode ser mas pode não ser.

Falo que questiono a idéia de um treino, até porque poderíamos ter três treinos diferentes. Aí chegamos a um suave consenso: nos pareceu que poderia ser uma boa idéia fazermos coexistir treinos diferentes (Ricardo sugere treinar aquilo que é difícil para cada um), e paralelamente realizarmos um treino igual para todo mundo.

Nisso já eram 22h20 e nos perguntamos se seria bom que os dois ensaiassem sozinhos na quarta-feira de manhã. Ricardo propõe que não, pois estamos num começo de processo e seria ruim se um dos três participasse de discussões tão fundamentais.

Pensamos então em ações que pudéssemos realizar, cada um onde estivesse, no horário que seria o do ensaio. Propus que apenas pensássemos no que há de performático no lugar/tempo em que estamos. Neto sugeriu uma atividade de registro das ações, em tempos determinados, por exemplo, a cada uma hora. Ricardo não concordou com a minha proposição, pois parte do pressuposto de que existe cena na vida cotidiana. Chegamos então no seguinte: na primeira meia-hora um registro simples das atividades realizadas, na segunda meia-hora um registro pensando num recorte “artístico”, e assim sucessivamente das 9h às 12h.

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2 Comentários so far
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Uma coisa imporante a dizer aqui: mesmo com o esforço louvável do Gustavo em transcrever toda nossa conversa, com toda certeza muitas coisas acabam ficando de fora. Foi uma conversa bastante interessante e que com certeza servirá de mote para muitas das coisas que iremos fazer. Ou não… se é que me entendem. bjo.

Comentário por Ricardo Marinelli

Sobre espaço da vida x espaço cênico, vida=cena, e vice-versa. Todas questões importantes de serem levantadas logo de início. Naum há como dizer que são questões do passado, me parece intrínsico a esse processo. Me parece intrínsico á vcs/nós. E presente em todas as coisas que fazemos desde q nos conhecemos.
Acontece que especiallizar-se em certos movimentos, falas, posições faz parte do processo/produto!! Acredito q mesmo q vc escolha “fazer nada” é preciso “especializar-se” nisso. Isto é, estudar a melhor forma de mostrar ou tornar isso visível. Porque mesmo tornando a cena mais próxima da “vida real”, é indiscutível que é um ambiente artificial. Entaum é isso!

Comentário por Michelle Moura




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