couve-flor tronco e membros


outubro 26, 2006, 8:33 am
Filed under: VÍDEO

Stéphany Mattanó

 

Olá gente, quem é vivo sempre aparece, e olha eu aqui…

Eu sei que para os couves de Curitiba está impossível falar comigo, pois além de eu estar sem celular (perdi no dia do lançamento do couve lá no Jokers), eu quase não paro em casa, mas vá lá.

Desculpas à parte, hoje foi um dia inspirador.

Eu vi as imagens que eu e a Michelle fizemos nesta terça-feira pela manhã numa TV grande. Fiquei bem feliz com o resultado.

Filmamos com o auxílio de um câmera man, o Fernando, mais conhecido como “Peruano”.

Ele fez esta filmagem conosco para que pudéssemos ter mais tranqüilidade com relação as funções de cada um.

**Eu tava lá com o meu caderninho onde estava anotado o roteiro prévio de imagens. Minha função era de seguir o roteiro de imagens e tentar direcionar onde “encaixariam” as ações da Michelle no quadro.

**A Michelle estava com uma blusa amarela que emprestei da minha vizinha Dayse (sim, a do Mundaréu) pela manhã. A função da Michelle era a de dançarina, coreógrafa, xelelê, que improvisava seus graciosos movimentos frente à câmera (muito bons por sinal).

**O Peruano lá estava com a câmera profissional, filmando em 24 quadros (imagem tipo de cinema). Sua função era não tremer (pois estava sem tripé (ele se mostrou um exímio bailarino de imagens). Ele controlava incidência de luz na câmera, regulagem de cor, contraste, brilho. Coisas típicas que um técnico deve fazer.

Nestas condições, às 11:15 da manhã de terça, saímos sentido República Argentina (perto da minha casa) de onde gravamos as imagens do último vídeo.

Após o trabalho, nós três conferimos material na câmera e nos divertimos bastante. Pena que vocês ainda não viram grandão. Bem legal.

Conceitualmente, partimos de uma idéia do chão do trilho do trem que a Beti filmou lá na Europa. Gostamos muito do movimento do trilho e da câmera estar fixa. Fazendo alguns testes com o Pablo no nosso último encontro, sobrepusemos a imagem de alguém dançando em cima dos trilhos. Meio brega, mas inspirador.

Encontrei a Mi na segunda-feira (um dia antes) e conversamos a respeito de como seria o roteiro. Comentei da possibilidade em termos um roteiro e funções claras, para que pudéssemos aproveitar o material registrado e o tempo de edição.

Seguindo a idéia de linha que encontramos no vídeo da Beti, eu e a Mi pensamos na linha do chão onde passa o biarticulado. Amarela. Perguntei para a Mi se ela tinha trazido a blusa amarela (a qual fizemos o vídeo do Metrô do Rio) e ela disse não.

Teimosia minha, tinha que ser amarelo. Daí no dia seguinte eis que consigo a tal da blusa amarela. Sorte.

Vamos aos takes (que a Beti pode tentar fazer algo com isso daí da França)

Take 1. De um lado da estação tubo, antes de passar a roleta, filmar dançarina de cima para baixo. Ele dança entre as estações tubo (uma de frente para outra). No chão a linha amarela e a textura do asfalto cinzento. Linha e blusa amarela. Ela dança entrando e saindo de cena. Câmera Fixa.

Take 2. De dentro desta estação tubo (após passada a roleta), filmamos a Michelle entrando no tubo da frente. Ela dança entre as pessoas que estão dentro do tubo. O tubo vai enchendo gradativamente de pessoas. As pessoas fingem que nada está acontecendo. Ela está de blusa amarela. Logo, passa em primeiro plano, uma senhora (concidentemente) de amarelo. Michelle pega o biarticulado que chega. Ela entra pela porta 3 e se posiciona logo em frente à câmera próximo à janela. Ônibus sai. Tubo vazio.

Take 3. Eu e o Peruano pegamos o prómixo ônibus depois do dela naquele tubo da frente. Fomos na porta 1, do lado do motorista fazer a imagem do chão do asfalto que o biarticulado percorre. Linha amarela divide o quadro. Ela nos conduz até a Michelle, que já está dançando entre os dois tubos seguintes. Ela está de amarelo. O ônibus para na estação tubo e a Michelle continua dançando. Quando ela percebe que o ônibus vai sair, ela muda para a outra pista e continua dançando. O ônibus sai, tirando Michelle de quadro. Continua take do chão até o próximo tubo.

Take 4. Terminal do portão. Michelle dança de um lado da plataforma do biarticulado. A gente filma de outro. Câmera parada. Quem compõe o vídeo além da dança da Mi, é a passagem de ônibus e pessoas frente à câmera.

Take 5. Terminal do portão. Michelle dança atrás da plataforma do biarticulado, em frente à um mural com anúncios (terceiro plano). A gente filma de outro. Câmera parada. Quem compõe o vídeo além da dança da Mi, é a passagem de ônibus e pessoas frente à câmera.

O que pode ser feito daí da França, creio eu, é filmar alguém de amarelo do outro lado da estação do metrô. Tal qual eu a Mi já havíamos experimentado no Rio.

Pelo que eu vi das suas imagens Beti, existem estações bem velhas por aí. Seria um contraste interessante para o padrão de imagens que temos por aqui. Tudo aqui é muito novo e muito diferente daí mesmo. Este seria um take que teríamos das três cidades. Curitiba, Rio de Janeiro e Paris ou outra cidade que você tiver.

Acho que por hoje é só pessoal.

Mi vê se confere.

Ah, agora só para a Mi, meu esboço de lista de agradecimentos:

**Dayse Santiago, Tamara Cubas, Karenina de Los Santos, Dayse Colaço.

Ainda não pensei em nomes para os vídeos, por enquanto fica Experimento #1, #2 e assim por diante.

Aceitamos sugestões

Beijocas à todos.

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Em que pé andam os ensaios (de 2.10.06 a 9.10.06)
outubro 10, 2006, 11:48 am
Filed under: PERFORMANCE

por Gustavo Bitencourt
Na segunda-feira, dia 2/10, conversamos sobre a idéia do tango, e como poderíamos tornar isso viável. Falamos sobre a proposta da Gisele, que havia entrado em contato por e-mail, se oferecendo para colaborar nesse sentido. Achamos que deveríamos ter um trabalho mais intenso com o tango, até para que ela possa ter elementos para lidar.

O Ricardo propôs um exercício que lembrava contact improvisation, mas acrescentando uma outra diretriz. Em três estágios deveríamos manter os seguintes princípios:

1o. estágio: sempre deve haver uma superfície de contato entre o meu corpo e algum dos outros dois corpos.

2o. estágio: sempre deve haver uma superfície de contato entre o meu corpo e os outros dois corpos.

3o. estágio: sempre deve haver uma superfície de contato entre o meu corpo e os outros dois corpos, acrescentando aí uma relação de atividade/passividade no que se refere ao uso do peso.

Achamos que o exercício produziu imagens que realmente remetiam à idéia de uma dança de salão, e tiramos algumas fotos (que breve coloco aqui).

Retomamos então àquelas coreografias que tínhamos criado (eu e o Neto), a partir dos nomes dos passos de balé. Eu passei para eles a coreografia que eu tinha criado, pois o Neto nunca tinha feito, e limamos algumas coisas, fizemos algumas adaptações.

Na terça-feira, dia 3/10, como o Neto não pode ir, eu e o Ricardo ficamos trabalhando, individualmente, com a idéia de fragilidade.

Na quarta-feira, dia 4/10, eu levei um texto do Paulo Ghirardelli Jr., que fazia um apanhado geral sobre as teorias da verdade nas história da filosofia. Conversamos um pouco sobre esse texto e eu propus um aquecimento que retomava um pouco uma idéia com a qual tínhamos trabalhado num dos primeiros ensaios. Naquela ocasião um se movia e os outros descreviam o que ele estava fazendo. Discutimos bastante sobre como os nomes solidificam a ação. Agora o que eu propus era assim: sempre haveriam 3 funções, nas quais fomos nos alternando: um se move, um registra por escrito (da maneira mais funcional possível), e o outro dá intenções a quem está se movendo. Essas intenções, bem como a ação, deveriam lidar com um contexto concreto e possível. Por exemplo, quem dá a intenção, nunca poderia dizer “sua intenção é chegar ao topo da montanha”, pois não tem montanha no local de ensaio. Então dizer “sua intenção é fingir que está escalando uma montanha”, se torna uma alternativa viável. A maneira de lidar com essa informação, para quem está em cena, é se fazer a seguinte pergunta: “Se eu (do jeito que eu sou, com o humor que eu estou hoje, neste lugar aqui, com essas pessoas, fazendo esse exercício, etc.) tenho que fingir que estou escalando uma montanha, como eu reajo?”. A resposta a essa pergunta é dada em forma de ação (ou não-ação).

Fizemos esse exercício em três turnos de 20 minutos, para que todos passassem pelas três funções. Então entreguei a eles algumas propostas de composição, na qual trabalhamos o restante do dia, mas não deu tempo de terminar. Ficamos então de apresentar as composições na quarta-feira seguinte (o que não vai dar para fazer, pois é o dia que a Giselle tem disponível para trabalharmos com o tango).

Na sexta-feira, dia 6/10, o Neto trouxe um exercício de aquecimento, no qual um girava o corpo do outro no chão, então propôs que retornássemos às coreografias (as dos passos de balé). Passou para mim e para o Ricardo a que ele havia criado (complicadíssima, e o Ricardo também achou). Trabalhamos nessa coreografia até o final do ensaio.

Trouxe também uma outra proposta, a partir do texto que eu tinha levado na quarta-feira, de que cada um criasse argumentações para defender a sua coreografia dentro de cada uma das teorias clássicas da verdade. Isso ficou como tarefa de casa.
Na segunda-feira, dia 9/10, estávamos eu e o Neto. Trabalhamos novamente com as coreografias, a minha e a dele, e aproveitamos o restante do tempo para elaborar a composição proposta na quarta-feira passada.



processos do vídeo
outubro 3, 2006, 7:02 am
Filed under: Sem categoria

Por Michelle  

Bem, esse e-mail é pa atualizar as criações do vídeo.

Assisti muito muito muito o vídeo que temos, mostrei tbm pra algumas pessoas pra sacar o que chamava a atenção delas (quem viu foi a Karenina, a Micheline e o Alex Cassal). Foi ressaltado os reflexos, a “tripa = vagão de trem” e o balanço. Micheline fez relação do vídeo com o estado onírico/letárgico da maioria das pessoas dentro do metrô ou do ônibus. Ok,  fiquei feliz porque o vídeo está “dando a ver” os elementos que estamos pensando e escolhendo.

Mas eu ainda acho que falta o tal tempero que comentei aí em Curitiba. Um algo mais.

Semana passada todos os dias peguei metrô, no mesmo trajeto que fizemos no vídeo: estação do Catete até a Siqueira Campos. Fiz imagens dos 3 bancos vazios, com 2 homens dormindo, 3 garotas e 1 tinha machucado o dedo….

Além dessas filmagens, tô pensando em capturar ainda mais material, pois no dia da edição tive essa sensação de que estava faltando material. E agora acho que esse tempero pode ser exatamente isso…propor alguns desdobramentos mais das mesmas imagens que já temos. Por hora estou pensando em fazer novas imagens (e complementares) com 3 pessoas (Micheline, Vivian e Flávia ).  Essas imagens se somariam as que já fizemos. Penso nos seguintes tipos de imagem:

1-     filmar todas as 3 juntas, só 2 juntas, por fim 1 só. Usando mais essa idéia de 3 bancos, 3 tipos diferentes de blusa (uma branca, uma azul, uma amarela)

2-     Um quadro em que surge alguém dançando fora sem aparecer que essa pessoa saiu do metrô. Ela sai da “multidão” que caminha no corredor.

3-     Os 3 bancos vazios.

4-     Repetir o mesmo procedimento que nós duas fizemos (mudanças de bancos) com mais uma das 3.

5-     Ter imagens de “anônimos”. Penso que poderíamos ter essas imagens em um outro tempo, mais veloz, flashes, mais tremida…uma sugeirinha. Coisa pra experimentar.

 

Tenho vontade ao assistir o vídeo de que fique por mais tempo só “a gente” sentada. E fazer com que a dancinha de fora apareça só mais pro fim ou pro meio. Percebi q a dancinha é uma mudança muito grande de “idéia”. E por isso, me parece interessante dar mais tempo para observar cada detalhe de cada quadro (reflexos, o “protagonista” repetido nos 3 quadros, os “figurantes q passam”, as transformações de uma pessoa para outra e para outra, isso antes de mostrar a dancinha…deixar que isso seja um outro momento, para que seja singular…pois é o único momento que aparece um outro ambiente e com uma ação completamente nova: uma dança, um X…

São essas as coisas que estou pensando pra agora.

Penso em fazer as novas imagens com as meninas nessa quinta-feira.

E também repetir a dancinha fora do metrô e com a câmera tbm fora do metrõ dessa vez com um tripé!

Por hora é isso!

 



coisas que foram escritas até agora e que sintetizam o processo atual.
setembro 29, 2006, 7:04 am
Filed under: Sem categoria

Michelle a Moura

Pra mostar que vai-volta volta-vai vice-versa versa-vice, as coisa tem continuidade!Uma síntese recorta-cola dos textos postados no blog que re-atualiza nosso processo nesse momento. Temos um mini-vídeo pré-concluido (semi-editado e sem áudio)! 

Os territórios que agora nos parecem mais “próximos” são os virtuais. Os espaços de nossas percepções.  Território como extensão, projeção e criação do corpo/mente. 

Nos interessamos por “lugares de passagem”: metrô, ônibus, ponte. “Lugar de passagem” seria um ”não-lugar” que tem como “função”: ligar, conectar, comunicar um lugar à outro. Um espaço entre. Pareceu interessante observar o nosso estado e das outras pessoas dentro do ônibus ou metrô. Há uma espera. 

Espaços de possibilidades. Estar aqui, e em termos de possibilidades, em muitos outros locais. O movimento é constante. E é assim que desejamos tratar território: como lugar não estável, fixo e estático, mas em ação. 

As cores (verde amarelado-beje), a mudança de estação de metrô (mas continuando a ser o mesmo ambiente).

 

Reflexos no vidro e sobreposição de dentro-fora.

 A presença de quem faz a imagem na imagem. Uma das formas de se fazer presente é assumir o “tremor da camera”, é “fazer corpo com uma imagem” sem maiores artificios…  O corpo de quem faz, o corpo de quem vê, o corpo de quem é imagem…   

Dentro dessa idéia de “territorios de passagem” e percebi que quase todas são imagens do vidro da porta ou da janela do metrô, ou trem, reflexos e transparências que constituem um “territorio” que faz habitar provisoriamente no mesmo plano a pessoa que esta sentada dentro do metro em frente à janela, os canos, cadeiras objetos dentro do metro, os riscos e pixaçoes no vidro, os riscos e pixaçoes nas estaçoes, as pessoas esperando do lado de fora, os cartazes..,  

Penso ser imprescindível que boa parte das imagens seja captada por couves. 

Uma idéia: como seria procurar não-lugares nos corpos que somos? existem trânsitos em nós?  

A “ligação” entre um lugar e outro é um “naum lugar” E se corpo é território, o que acontece com ele em um “naum lugar”? Viaja pra outros lugares potenciais, só com a mente? Agrupando-se e colando em outros territórios/corpos. “sujeito e territorio sao indissociàveis”, biensûr pq o corpo é o primeiro territorio. No mesmo texto Foucault desenvolve a ideia e diz que na verdade o corpo é o centro de todas as utopias, que construimos “nao lugares”, no corpo e fora dele, e que em busca dessas utopias nos afastamos do corpo.



resposta ao e-mail do gus…processo meninos
setembro 28, 2006, 6:07 am
Filed under: PERFORMANCE

Por Michelle Moura 

Oi Gus, bacana ler sobre o processo.

Vou escrever meio rápido, pois são muitas coisas pra dizer.

Gosto da idéia da mentira x verdade. Acho que dá pano pra manga pra discutir estados de presença. Relativizar o que é ser “natural”, interpretativo. Colocar essas coisas em debate. Digo, como que podemos ingenuamente acreditar que um artista não está interpretando só pq tem uma atitude “natural”? Esse é um modismo, ou, um estilo dança contemporânea de ser… Verdade e mentira é um bom modo de colocar isso em cena. E tbm tem haver com afetividade (em algum grau) nos simpatizamos ou temos antipatizamois por um ou outro modo de estar cena, e de ver alguém em cena. Jogo de sedução!

Sua proposta (em triângulo) é legal, mas é difícil ter parâmetros pra “julgar” um movimento como verdadeiro ou não…. Diferente da fala…aí sim é possível.

Hj fui no Seminário de Dança e Filosofia, e ouvi a Isabelle Ginnot falar sobre crítica de dança. Ela propos coisas interessantes partindo da idéia de que uma crítica é escrita sempre apartir da memória do que foi visto do espetáculo (uma ficção!!) seguido da percepção (sempre em transformação!) particular desse observador: suas referências, sua seleçaõ (nunca se observa tudo!), seu modo de organizar a informação… Aí propõem a escrita, a crítica tbm como uma “performance”. Aí falou coisas que me lembarm o exercício de “olhar alguém dançando/performando e outro descrever o que vê” e o 4 textos em que vcs pedem as fotos. Ela fala assim (tudo entre aspas + minha tradução do inglês falado por ela que é francesa):

Escrever é um jeito de olhar.

Testar a percepção da dança através da escrita.

Como palavras podem ser dança?

E sugere alguns exercícios durante o ato de assistir 1 dança e escrever 1 crítica:

Fechar os olhos alguns momentos.

Perceber se vc tem empatia ou antipatia. As relações afetivas com o movimento, a dança, a cena. E sacar que a subjetividade pode ser uma mentira, 1 delírio.

Pensar que vc (que assiste/escreve) é o bailarino. Colocar-se no lugar dele. E escrever tudo em EU. Como se vc fosse o bailarino, descrevendo o q faz.

Meio rápido, mas bastante texto…

Beijos a todos da Mi



Sobre os últimos ensaios (de 18 a 27.09.06)
setembro 27, 2006, 11:35 pm
Filed under: PERFORMANCE

por Gustavo Bitencourt

Vou dar uma resumida sobre como foram os últimos ensaios. Vou focar esse resumo mais nos assuntos de que estamos tratando, e nem vou tentar ser imparcial pois não tenho como ter esse distanciamento, ao menos agora.
Antes de ir viajar, o Ricardo nos atribuiu a tarefa de produzir algo relacionado à dança de salão. Justificou essa tarefa pois tem observado que uma das primeiras imagens que vêm à cabeça de pessoas /não-iniciadas/ quando se fala de dança é a idéia de um casal dançando uma dança de salão. Propôs que pensássemos como seria uma dança de salão dançada por dois homens. Falou de como tem por objetivo uma dança que emocione, e propôs também que pensássemos sobre as relações afetivas e de submissão que existem nesse tipo de dança.

Eu e o Neto trabalhamos um pouco nisso durante a semana passada. Os dois estávamos propensos a trabalhar com tango, pois carrega uma carga dramática, romântica, que se adequava a essa idéia. Como não tínhamos referenciais sólidos sobre tango (ficamos a semana inteira tentando alugar um filme chamado “Tango” que não se acha em lugar nenhum), partimos das nossas primeiras imagens sobre a dança, e criamos uma coreografiazinha.

Na segunda-feira (25/09) encerramos a seqüência e apresentamos ao Ricardo, que nos mostrou uma seqüência na qual ele tinha trabalhado também nesses dias. Conversamos um pouco, e chegamos a um consenso (um dos poucos) sobre a idéia de trabalhar com fragilidade, de se colocar em um estado de fragilidade em cena (tenho quase certeza que alguém falou de “limites”, de desafiar “limites”. Tenho certeza que mencionei “estar em risco”). Pensando nisso, retornamos a uma das idéias iniciais que era termos um treinamento homogêneo para todos, e paralamente trabalharmos em treinos individuais. Ficou definido algo assim: cada um vai trabalhar individualmente com as suas fragilidades, e paralelamente traremos três treinos diferentes que desafiem as nossas fragilidades como coletivo.

O Ricardo ficou com essa idéia de como poderíamos ter um trabalho intenso com dança de salão. O Neto sugeriu que trouxéssemos um pouco desse pensamento Kunifas/Infantes sobre o corpo-estado-de-atenção-relação-corpo-espaço-músculo-esqueleto, esses troços todos. Eu sugeri que retomássemos a discussão sobre mentira e verdade em cena/da cena.

Hoje, quarta-feira (27/09), tivemos outro ensaio. Expliquei que havia pensado muito sobre a minha proposição do ensaio passado, e se isso não seria uma forma de me colocar num lugar mais confortável, pois fico muito mais à vontade com o raciocínio lingüístico. Mas vi também que se eu fico mais confortável, é porque esse é um lugar que me interessa, isso porque acredito que o corpo é construído de discursos. Que os “buracos” na relação entre os nossos corpos são os mesmos que existem na relação entre os nossos discursos. Exemplifiquei como vejo os nossos discursos refletidos nos nossos corpos, e que a discussão sobre verdade e mentira em cena seria uma forma tanto de alinharmos os nossos vocabulários entre nós, como de estabelecer uma comunicação com o público ao qual pretendemos falar.

Eu trouxe um questionário, que já havia enviado por email e estou anexando aqui, mais um texto da Adília Lopes (também está no anexo), que eu sempre menciono cito e amo muito, e uma proposta de exercício assim: sentamos em triângulo, e cada um fala uma frase ou conta uma história começada por “Eu já…”. A história pode ser verdadeira ou falsa, a assim que for contada, os outros dois dizem se acham que é verdade ou mentira. Depois essa mesma estrutura seria traduzida em movimentos da seguinte forma: convencionamos aleatoriamente um movimento que quer dizer “verdade”, outro que quer dizer “mentira” e outro que quer dizer “Eu já…”. A partir disso escolheríamos 5 das coisas que dissemos, e criaríamos um movimento/seqüência para cada uma delas. Depois de realizada a seqüência os outros “diriam” se é verdade ou mentira com os movimentos que convencionamos.

A partir dessa segunda etapa do exercício, o Ricardo e o Neto questionaram muito sobre que transposição é essa, se é possível transpor ou traduzir essa organização lingüística para movimento e qual a necessidade disso. Ao Ricardo parece que, apesar do discurso estar inscrito no corpo, essa transposição não é imediata, são discursos de ordens diferentes. O Neto questionou se a gente manteria a mesma estrutura de “contar uma história” com o corpo, e a ele parece que seria muito diferente o que se pode chamar de um “movimento verdadeiro” de um movimento que se refere a “uma história verdadeira”. Expliquei que o objetivo do experimento era justamente testar até que ponto a relação com o movimento se modifica quando existe por trás dele algum discurso que é real, ou acreditamos ser real.

Fizemos o exercício e, após, o Ricardo também questionou sobre a necessidade de se discutir mentira e verdade em cena, pois a cena é necessariamente uma mentira, e o certo seria a gente focar a discussão nas /intensidades/ de relação que se quer estabelecer com o público. Falei que para mim essa situação que se cria ao apresentar algo a um público não está tão bem resolvida – é uma mentira, mas uma mentira que todo mundo sabe que é mentira, então é uma verdade – e ressaltei a importância de ajustarmos os nossos vocabulários, pois o que ele entende por /intensidade/ talvez seja uma expansão do que eu conceituo como /verdade/ (cênica).

Claro que as discussões foram bem mais longas e cheias de ramificações que não estão aqui, mas dá pra ter uma idéia geral.



Stéphany Mattanó 20.09.06
setembro 20, 2006, 8:38 pm
Filed under: VÍDEO

Stéphany Mattanó 20.09.06

Que lindo Beta, hehehehehe.
Estou bem feliz que pode fazer estas reflexões com mais alguém para seu trabalho. Acho importantíssimo que nós encontremos pessoas com quem compartilhar processos, não sei o que seria de mim sem as opiniões da Tamara, da prática com a Mi e todos os nossos e-mails couves. Acho que tanto eu quanto a Mi, após a experiência no Rio, estamos mais generosas para com o nosso processo de captação de imagens. Não esperamos mais que tudo dê 100% certo de primeira, ficamos atentas para o que vai acontecer de imprevisto e ficamos mais tranqüilas com as idéias que vão surgindo no meio do caminho. Verificamos possíveis falhas, e no dia seguinte nos propomos em refazer o que deu errado.
Mas o que é mais bonito disso tudo é que mesmo com idéias simples de serem executadas, surpresas sempre aparecem, e elas podem modificar completamente a poética da imagem. Principalmente em locais públicos como o metrô.
A Mi vai pro Rio só na semana que vem.
Estou muito curiosa para ver seu material, eu gostei da idéia da mudança de ângulo e perspectiva da imagem. Em por falar nisso, espelhamos algumas imagens que fizemos no metrô e colocamos de trás para frente
em edição. O que nos surpreendeu bastante e nos abriu uma série de possibilidades daqui pra frente. O que nós fizemos até agora foi colocar os videozinhos que fizemos na câmera da Mi numa tripa de três quadros. (Dividir a tela em três).
Criamos uma narrativa na captura das imagens, uma trajetória de estações do metrô. E alguns elementos se repetiam, como por exemplo eu e a Mi usarmos a mesma blusa para dançar. Este material está com 01min e 50seg. E a gente já pretende passar amanhã na FNAC. A idéia de ser vários vídeos é ótima.
Seus vídeos podem ser editados separados ou complementar idéias nossas. Creio que o processo está caminhando para ser uma seqüência de vídeos sobre o mesmo tema.Tem um material que a gente ainda não usou que é a estação do metrô parada e a Mi dançando bem no fundo. Tem outro igual só que comigo, e o vagão parte e eu desapareço. Porque eu saquei que ele tava saindo e eu subi a escada rolante. Assim quando ele partiu eu já não estava mais lá. De repente poderia casar com as suas imagens dos trens de cruzando ou partindo… Acho que é isso por enquanto. Aproveite sua temporada italiana…
Beijocas
Stéphany