couve-flor tronco e membros


Desabafo, crise pessoal e mais uns lances
julho 26, 2006, 8:02 am
Filed under: GERAL

Gustavo Bitencourt

Pessoas do meu Brasil,

Eu tenho falado meio en passant, meio sem dar muita ênfase, mas agora é definitivo: ESTOU EM CRISE. Mas tipo assim A crise. Desde a premiação do projeto, sei que tenho sido sempre um dos mais empolgados, tou cheio de idéias, acho todas ótimas na hora, depois de uns 10 minutos tudo me parece tão dâaaaarrr.

E eu sei o motivo disso: acho que o nosso casamento, assim como qualquer casamento depende de uma certa autonomia dos envolvidos. E, no meu caso, o único vínculo que eu tenho com produzir e pensar arte hoje são vocês, carinhas. Tipo uma dona-de-casa que espera o marido voltar da firma.

Isso porque eu nunca comprei totalmente a idéia de ser artista pro resto da vida, e ficar sem aposentadoria, sem plano de saúde, dependendo de atendimento do SUS.

Acabei de ver o documentário da Cris, quase finalizado (um trabalho de primeira, tão de parabéns ela e todos os envolvidos). Mas aí eu vejo lá todo mundo espremidinho, nuns apartamentos pequenininhos, ou nuns cafés apertadinhos, aí o Tere O’Connor (que na época do workshop eu achava o cara mais pragmático) falando de optar por viver fora de uma sociedade de consumo. E tem um lado meu que quer muito consumir, fazer viagens turísticas, ter um plano dentário, plano de previdência privada. Aí lembro do Octávio Camargo falando “tem que escolher entre o leite das crianças e o néctar dos deuses”. E eu sei lá se quero esse néctar dos deuses.

No encontro que a gente teve sobre a performanceaçãopeçaetc., o Ricardo me cobrou pra eu deixar de ser burocrata, cobrança que a gente fazia pra ele quando ele começou a andar com pastinha de professor universitário. Tou péssimo.

Aí eu olho pro meu dvdzinho (no qual eu gastei uns 30% do que eu recebi quando pedi a conta no último emprego), e não vejo lá uma idéiazinha, nada mesmo que eu queira levar adiante, que eu ache que mereça investimento. EU NÃO TENHO UM TRABALHO. Mas tenho um emprego, e tá dando pra pagar o aluguel, com essa grana que entrou agora do projeto, deu pra começar a pagar o computador, instalar ADSL. Mas essas granas de projeto são intermitentes. Tou velho. E com medo. Um velho medroso. Que não compra idéia nenhuma de verdade, que tem sempre um pezinho atrás, e por isso fica pulando de galho em galho. Um velho macaca doida. Mas que sempre admira muito a fé e o empenho de vocês.
Pronto, parei.

Agora sobre ensaio: vi hoje novamente com o pessoal do Solar, hoje resolveram me passar pra Sônia que administra a sala que a gente quer. Custa 40 reais a cada 3 horas, sem choro nem vela. Propus uma contrapartida, de repente uma oficina, alguma coisa, como já fiz em outros tempos. Nem pensar. “Não fazemos mais isso”, afirmou a moça.
Ou seja, ainda estamos sem lugar pra ensaiar. Não consegui nem tempo pra ligar lá no Sada atrás dos vestidos ainda, faço isso amanhã sem falta.

Ricardo eu sei que tá viajando. Neto, sei lá. Enfim não rolou ensaio, nem encontro nem nada. Eu levei a sério a história de usar esse tempo do encontro para pensar no espetáculo. Fiquei o tempo todo lá vendo o documentário e criando links pro que a gente pode fazer.

ANEXO 1 – Uma crítica que me comoveu horrores há algum tempo já, por ser extremamente coerente e com boníssimas intenções (Cris, não tinha te mandado isso antes porque tava com vergonha)


(…) In your case I was surprised to find that much of the video material seems aesthetically quite different from your formal approach for the skeleton project. Quite frankly speaking, I am doubtful as to your performative qualities and your self-awareness as a performer. Of course, it is always hard to judge these things from video excerpts. It is therefore a bit hard to get into more details here. The performances seemed either very static and/or had a strong tendency to being pathetic and vain. While for your new project you propose to investigate the structure of narration, I don’t see that same formal awareness and criticism in your former projects.

(…) I hope that you will find the means and support to develop your project further. As I have expressed, I find it a very valid and productive set up.

Jan-Phillip Possman (curador do Plateaux Festival)

ANEXO 2 – Uma seqüência de poeminhas da Adília Lopes

O poeta de Pondichéry

Diderot (ou quem fala por ele em Jacques le Fataliste) recebe um jovem que escreve versos. Acha os versos maus e diz ao jovem que ele há-de fazer sempre maus versos. Diderot preocupa-se com a fortuna do mau poeta. Pergunta-lhe se tem pais e o que fazem. Os pais são joalheiros. Aconselha-o a partir para Pondichéry e a enriquecer lá. E a que sobretudo não publique os versos. Doze anos mais tarde o poeta volta a encontrar-se com Diderot. Enriqueceu em Pondichéry (juntou 100.000 francos) e continua a escrever maus versos.

Por que é que o mau poeta deve ir para Pondichéry e não para outro lugar? Por que é que seus pais são joalheiros? Por que é que juntou 100.000 francos? E por que é que passou doze anos em Pondichéry? Não sei explicar. O que me atrai é precisamente isto: Pondichéry, pais joalheiros, 100.000 francos, doze anos.

Para quê sacrificar uma página em branco?
se ainda se escrevesse em peles de bezerros recém-nascidos
atrevia-me a sacrificar bezerros recém-nascidos?
acho que sim


Vou dedicar todos os meus poemas a Diderot
escrevo só A Denis
ele sabe que é esse Denis
eu também
as outras pessoas não
não há embaraços

Se não tivesse conhecido Diderot
dizia hoje coisas diferentes das que digo hoje
devo-lhe a minha fortuna e o meu desgosto

Mercurocromo bofetadas café com leite ópio
toda uma vida em vista de um poema
de que Diderot não gosta

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