couve-flor tronco e membros


Ata – Reunião – 15/7/06
julho 20, 2006, 7:27 am
Filed under: ATAS

Gustavo Bitencourt 

Ata – Reunião – Sábado, 15/07/06.

A reunião começou ao meio-dia, na casa da Stéphany. Cheguei em torno de meia-hora atrasado, por razões romântico-afetivas, então não sei exatamente do que o povo estava falando até então.
A Stéphany fez um macarrão bem gostoso. O Ricardo estava acabado, numa ressaca absurda, conseqüência de um processo que eu acompanhei, em parte, na noite anterior.
Depois do almoço fomos para o quintal, sentamos numas esteiras e ficamos papeandinho. A reunião se dividiu mais ou menos em duas partes.

Questões práticas

Falamos dos espaços para apresentação e ensaios, e também sobre a idéia de comprar uma câmera, que servisse tanto para o registro do processo de ensaio, como para as apresentações, registros do Pílulas de deslocamento, e também para o vídeo.
Sobre os espaços para ensaio, expliquei que as salas do Guaíra não estão mais sendo locadas e que o Espaço 2, que havíamos também cogitado, não estava disponível nos horários que precisamos. Cogitamos então outros espaços, como o Teatro Londrina, o Solar do Barão, a Casa Andrade Muricy. O maior problema de todos esses espaços parece ser o fato de que estão vinculados à Fundação Cultural, o que no meu ponto de vista dá um ar institucional para o projeto, mas não seria problema se fossem usados para os ensaios.
Concordamos que o melhor seria tentar estabelecer uma parceria com o Museu Oscar Niemeyer, propondo que tudo aconteça lá: os ensaios, as apresentações, o lançamento do site, a performance da Cris. Ficou combinado que o Neto, que já tem contatos lá por causa do Mobiliário, iria marcar uma reunião, e que alguns de nós que tenham disponibilidade devem ir junto.
Paralelamente, nos comprometemos em buscar outras alternativas, eu me comprometi a conversar com o pessoal do Solar, para os ensaios. Alguém iria ver o Londrina, e nos informaríamos sobre outros espaços da Fundação, pois eles serão agendados por meio de edital, que ao que parece já está aberto.
Quanto à idéia de comprar uma câmera – que havíamos cogitado durante o encontro sobre o espetáculo, na semana passada – questionamos se ela poderia realmente servir aos propósitos de todos. A idéia parece boa, pois poderíamos ter registros de várias coisas, desde reuniões, até apresentações finais. Porém, comprar uma câmera, pensando em uma câmera doméstica, de uns 2 mil a 2.500 reais, não valeria a pena se não servisse também ao vídeo, reduzindo os custos com locação de equipamento. A Stéphany ficou de pesquisar se existe alguma câmera com uma boa resolução e qualidade que estivesse nessa faixa de preço, mas obviamente não seria uma câmera profissional, que custaria mais de 10 mil. Nesse ponto, questões práticas começaram a se juntar a questões teóricas, pois para pensar nisso era preciso entender o que se busca com o vídeo, em termos estéticos.

Questões teóricas

Conversamos mais um pouco sobre o vídeo, quais seriam as necessidades e o que se propõe exatamente, como linguagem. Conversamos também um pouco mais sobre o que foi o nosso primeiro encontro para falar sobre o espetáculo. Traçamos paralelos entre o que estamos nos propondo a pesquisar (corporalidade/corporeidade, corpo-território, território nas relações afetivas, violência) e o que a Cris propõe com o Pílulas e com a instalação-performance inaugural.
Encontramos pontos comuns no que se refere à relação entre corpo, afetividade e território. A Cris também se interessa por afetividade, e está interessada principalmente em espaços de ausência. Para isso parte de uma perspectiva fenomenologista, como a de Merleau-Ponty, e de conceitos como o de visível e invisível.
A Stéphany deu o exemplo de quando a gente trepa com alguém, como o corpo demora para absorver a ausência do outro. Esse exemplo se relaciona muito à proposta da Cris.
Do meu conhecimento bem escasso sobre o assunto, mas com base no que o Neto e a Cris falaram sobre o Merleau-Ponty, me opus ao dualismo dessas idéias, e também à existência de uma espécie de essencialidade das coisas, pois não acredito que existam coisas por si só.
Mencionei que uma questão que já está aparecendo, e que talvez seja um ponto de união entre tudo o que estamos produzindo, é a autoria. Falamos sobre o que seria autoria, qual ou quais as diferenças entre uma assinatura pessoal e uma assinatura coletiva, como a do Couve-flor. A Cris e o Ricardo ressaltaram a impossibilidade prática de levar a sério algumas idéias desconstrutivistas, como as do Derrida. Isso traria, segundo eles, uma série de conseqüências práticas ao trabalho e uma série de desvantagens. Como é abrir mão da autoria, se dependemos dela para veicular, divulgar, materializar o nosso trabalho?
O Neto trouxe também como referência um livro que ele está lendo (não lembro o nome), que trazia uma série de conceitos e discussões sobre a idéia de posse. Tratava-se de cartas, escritas por um coletivo de filósofos, na Rússia, por vota da década de 1920. Citou uma frase que era mais ou menos assim: “possuir é tomar um bem para si, de forma que outros não possam desfrutar dele”.
Ainda sobre o Derrida, estou emprestando o livro para que aos poucos as pessoas possam xerocar o Assinatura Acontecimento Contexto . Expliquei mais ou menos do que se tratava: o texto que consta no Ltd. Inc. é uma resposta do Derrida a uma resposta que o John Searl escreveu a um texto do Derrida. Ali o Derrida questiona, entre outras coisas, o que é assinatura – se seria possível, por exemplo, reinvindicar a sua parcela de autoria no texto do Searl sobre o texto dele, já que sem um não existiria o outro. Ele questiona também que nível de conhecimento se tem de uma pessoa por suas idéias (“eu conheço John Searl?”) e se não seria a assinatura um ícone que representa não uma pessoa mas um conglomerado de discursos.
Questionei sobre o Pílulas de deslocamento da Cris, se não havia uma incongruência entre fazer um trabalho que parte da anonimidade, e depois dar um título, veicular no portfólio pessoal, no currículo. Ela diz que a idéia principal não é anonimidade, mas deixar para trás. E pensa em de certa forma “assinar” as peças, com uma couve-flor pink, e um endereço de e-mail, que serviria não para responder, mas sim para ver se vem alguma coisa, como um acompanhamento.
Nesse ponto a conversa estava encerrando, eu estava com pressa de ir para casa, por razões romântico-afetivas, o Ricardo podre de ressaca, passou por uma espécie de descarrego com folhas de tabaco, rapé e chimarrão.
Ficamos de encontrar de todo modo no MSN no domingo, a partir das 14h – o que eu não fiz, por razões romântico-afetivas. Me contem se e o que rolou.

Beijos a todos.

P.S.1: Pela extensão das nossas conversas, e também para que possamos divulgar e começar a abrir o projeto, decidimos que seria necessário que eu colocasse o blogue no ar ainda esta semana, o que eu vou fazer. Vai ser necessário daí que a gente migre essas discussões para lá, ao invés dos e-mails. Estou organizando também os e-mails que a gente já tem para publicar no blogue, antes que a gente comece a postar coisas novas, porque aí as coisas ficam em ordem cronológica.

P.S.2: Observei uma coisa nessas atas que acho legal comentar. No começo eu atribuía muito mais autoria às discussões (“o Neto falou isso”, “o Ricardo concordou” etc.). Observei que tenho escrito muito mais no plural (“dissemos que”, “concordamos que”). Pensei se não seria uma tendência minha (minha? que minha?) a pensar menos em autores. Mas acho que talvez seja porque temos produzido mais em conjunto. Observem que nesta agora as “questões práticas” estão mais no plural – acredito que porque estamos falando mais coletivamente – e as “teóricas” têm mais indicações de autor – e talvez seja porque estamos começando a discutir essas coisas há pouco tempo. Não acho que isso nos levaria a um pensamento comum, o que seria impraticável e bem pouco produtivo, mas que estamos encontrando aos poucos um discurso e um vocabulário coletivos para articular as diferenças, e isso me parece bem bonito.

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